Pandemia

Sou filho da guerra, não conheci a guerra.

Meu pai conheceu e bem!

Foi sargento da FEB na Itália.

 

Minha mãe foi mulher de pracinha.

Sofria a cada dia com a visão do carteiro a se aproximar do portão.

Ela contava do treinamento de blecaute no estádio do Pacaembu.

Dizia: “Era para saber se proteger se São Paulo fosse bombardeada.”

Ela contava do medo…

 

Meu pai, “habitué” do front, falava das misérias da guerra.

Do companheiro de abdômen dilacerado por um estilhaço de morteiro.

Das vísceras expostas do soldado e da sulfa inútil que ele despejou.

Falava da morte…

 

Nada nem ninguém era invisível naqueles dias da Segunda Guerra Mundial.

 

E agora José? Desculpe-me o Drummond.

Agora somos bombardeados com a ideia do inimigo invisível, o vírus coroado!

Coisa de político a classificar a pandemia como guerra.

Governantes em campanha (não no campo de batalha), a pedir união em nome da saúde pública.

Ou em prol das corporações e dos bancos?

 

Estranha a mania de a humanidade tentar ser verdadeiramente solidária somente na tragédia ou na crise.

Quando a vida volta ao normal, voltamos a ser desiguais em quase tudo!

Tanto nas divisas militares como nas sociais e financeiras.

Mas como diz o clichê mais escrachado: “Unidos venceremos.”

 

Não venceremos, pois não se trata de uma guerra.

Superaremos.

Desde que possamos cumprir a distância social para enganar o vírus.

Desde que possamos tratar nossos velhos como iguais.

Desde que possamos deixar o tempo correr sem lamúrias infantis.

 

Já fomos bravos em 1945!

Por que não hoje?

Afinal, não se ouve o assobio de morteiros lá fora!

 

 

 

1 thought on “Pandemia”

  1. cristina de lourdes pellegrino feres

    Vejo você sentado,
    emocionado,
    lembrando de um tempo que não viveu
    de cenas que não viu
    mas que delas guarda
    dor
    emoção
    forte mesmo é o tom de carinho e admiração
    pelo seu herói
    agora distante

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